Transplante pulmonar ainda enfrenta desafios em adultos e crianças no Brasil

Durante encontro Nacional ABRAF 2025, a médica Silvia Vidal debateu caminhos, avanços, barreiras e perspectivas da cirurgia de pulmão

Por Fernanda Silva
6 Min

Transplante pulmonar ainda enfrenta desafios em adultos e crianças no Brasil
Edith Schmidt

A complexidade e a relevância do transplante pulmonar, tanto para pacientes adultos quanto para o público infantil, foi um dos temas do Encontro Nacional ABRAF 2025. O procedimento cirúrgico representa uma alternativa de tratamento para indivíduos com doença pulmonar avançada, sem resposta a outras terapias. O tema foi abordado pela médica infectologista Dra. Silvia Vidal Campos, coordenadora clínica do grupo de transplante pulmonar do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

A discussão sobre o assunto no evento foi realizada pela Associação Brasileira de Apoio à Família com Hipertensão Pulmonar e Doenças Correlatas (ABRAF), entidade privada sem fins lucrativos. A associação tem o objetivo de apoiar a comunidade afetada por Hipertensão Pulmonar e doenças correlatas por meio de acolhimento, conscientização e promoção de políticas públicas. 

A Dra. Silvia Vidal Campos, única médica latino-americana a participar do consenso de critérios da Sociedade Internacional de Transplante de Coração e Pulmão (ISHLT) de 2021, descreveu a realidade dos transplantes como uma verdadeira “montanha-russa de emoções”. Ela ressaltou a importância da atuação conjunta com os cuidados paliativos, desde o acolhimento das famílias de doadores até o acompanhamento pós-transplante. A médica lembrou que os procedimentos são realizados em hospitais de São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará e Minas Gerais, e que as dificuldades geográficas representam um desafio adicional. Explicou também as etapas do processo: pré-transplante, avaliação, inclusão na lista de espera estadual (que pode levar até 18 meses), o procedimento cirúrgico, com destaque para os casos específicos de hipertensão pulmonar, e o período pós-transplante. 

Ela falou sobre esse momento com os pacientes e familiares no Encontro Nacional da ABRAF. “Fiquei extremamente lisonjeada e honrada de estar nesse encontro, porque é o que falei na palestra, você ser reconhecida pelo próprio paciente, ele querer saber as suas informações, para mim não tem preço”, agradece.

“O transplante ainda é um mito para muitos pacientes, principalmente nos casos de hipertensão arterial pulmonar. A brincadeira que fiz é a seguinte: é uma bomba relógio, que às vezes parece a panela de pressão sem a válvula de escape, e é justamente porque a gente não sente, não tem os sintomas de tudo que um paciente de hipertensão pulmonar tem. A gente sabe que esse caminho que ele vai seguir até chegar ao transplante é tão complexo. É difícil, pode ser assustador, pode ser aquele bicho de sete cabeças, mas o paciente não está sozinho, tem uma equipe para ajudá-lo. Há uma luz no final do túnel. Também não é um mar de rosas, mas tem, sim, como transitarmos neste período de mãos dadas e chegar num momento de pós transplante para recuperar anos de vida com qualidade de vida”, afirma, 

A médica explicou como funciona o processo de recuperação na UTI e na enfermaria após o transplante. No caso dos pacientes que precisam do ECMO, a máquina que promove a oxigenação por extracorpórea, o procedimento pode durar entre 10 e 12 horas, estendendo-se também no período pós-operatório. Trata-se de um tratamento de maior risco, já que envolve duas cirurgias. O pós-cirúrgico inclui hemodiálise e outros cuidados intensivos. Após o transplante, a rotina é intensa: nos primeiros três meses, o paciente enfrenta efeitos colaterais, sessões de reabilitação e fisioterapia, além de seguir rigorosamente o uso de medicações e realizar broncoscopias de vigilância.

A dra. Silvia incentiva que os pacientes já estejam atentos à opção de transplante. Como o caso do marido de Mariana. “Ele tem atualmente cinquenta e sete anos, o diagnóstico da hipertensão arterial pulmonar veio há cerca de cinco anos. No início, os sintomas eram leves e as medicações, simples, e conseguimos tratar bem em Belo Horizonte. Mas depois o quadro foi se agravando, ele já estava usando as últimas medicações e questionou os médicos sobre a possibilidade do transplante.  Viemos de Minas para São Paulo. Ele já veio transferido, estava numa internação lá e já tinha indicação de transplante. Passou por todo o processo, com a equipe da dra. Silvia no Incor, e no dia 26 de dezembro de 2024 fez o transplante. Teve todas essas intercorrências que foram explicadas, acho que até mais algumas. Foram meses de internação, mas graças a Deus ficou sem sequelas. Hoje está na fase de reabilitação, controle do primeiro ano, mas está livre de oxigênio. Agora uma vida totalmente diferente da fase final da doença”, relata Mariana.

O Encontro Nacional ABRAF 2025 representa um momento de aproximação entre pacientes, familiares e profissionais de saúde, que compartilham experiências e ampliam o acesso a informações de qualidade. Para a presidente da ABRAF, Iara Machado, o debate é importante. “O transplante pulmonar é um tema importante e por isso fizemos questão de convidar a dra. Silvia para o encontro nacional. Muitos pacientes ainda têm dúvidas e medo do transplante. Promover conhecimento aos pacientes e familiares faz parte da missão da ABRAF e é uma forma de cuidado”, destaca. 


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FERNANDA PEREIRA DA SILVA
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FONTE: Fernanda Pereira / MOP3 Comunicação
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