A educação financeira segue sendo tratada como um tema acessório no debate público brasileiro, mas sua ausência cobra um preço alto — especialmente nas periferias. Em muitas escolas públicas de alta vulnerabilidade, a falta de informação sobre dinheiro não é apenas um desafio econômico: é uma barreira psicológica, social e até emocional. Para milhares de jovens, sonhar parece um privilégio distante; para outros, o sonho existe, mas sem qualquer conexão com o “como”. Entre o desejo e a realidade, forma-se um vazio que a escola raramente consegue preencher.
Em um contexto em que boa parte desses estudantes já abre uma conta bancária, usa PIX, assume pequenos créditos ou contribui com o orçamento familiar ainda na adolescência, a educação financeira deixa de ser um “conteúdo” e passa a ser uma ferramenta de autonomia. E quando essa conversa chega de forma didática, humana e intergeracional — como no programa 50Vezes Educação Financeira, da Multiplicando Sonhos — o impacto é imediato e concreto.
Diversos estudos mostram que jovens que têm contato com educação financeira no Ensino Médio tendem a reduzir o uso de créditos caros, planejar melhor seus gastos e desenvolver competências decisivas para tomada de decisões ao longo da vida adulta. Ainda assim, a maioria das escolas públicas brasileiras não dispõe de estrutura, formação docente ou políticas estáveis que garantam esse conhecimento.
O resultado é um retrato silencioso, mas comum: estudantes que, pela falta de referência, não sabem sonhar — ou sonham tanto que o desejo não encontra realidade.
Na mesma sala convivem dois cenários frequentes:
Ambos revelam a mesma raiz: falta de orientação, ausência de repertório e um contexto de vulnerabilidade que impede o desenvolvimento de autonomia financeira e emocional.
Nesse cenário, a presença de voluntários 50+ transforma a dinâmica da sala de aula.
Eles não chegam apenas para ensinar sobre orçamento, juros ou planejamento.
Chegam com algo que os jovens reconhecem de imediato: histórias reais.
Histórias de escolhas certas e erradas.
Histórias de conquistas e recomeços.
Histórias de quem já viveu o suficiente para falar de dinheiro sem idealização e sem romantização.
Essa troca cria uma ponte emocional rara: jovens que muitas vezes não têm adultos de referência encontram, ali, alguém que olha nos olhos, escuta, respeita, ensina e aprende ao mesmo tempo.
Uma das histórias mais simbólicas ocorreu após uma palestra:
um estudante procurou os voluntários para contar que estava repensando sua forma de lidar com dinheiro. Ele havia entendido que impulsos e decisões mal planejadas estavam consumindo seu salário de estágio — e que poderia mudar esse padrão. Meses depois, compartilhou que seria efetivado e já tinha um plano para o seu primeiro salário.
Uma conversa.
Uma aula.
Um ponto de virada.
E é justamente nessa dimensão — pequena no volume, enorme no impacto — que a educação financeira faz diferença onde mais importa.
Programas como o 50Vezes Educação Financeira mostram que alfabetização financeira vai além de ensinar finanças: trata-se de preparar os jovens para navegar a vida.
Mas o alcance desses resultados ainda depende de iniciativas voluntárias, parcerias institucionais e esforços isolados. Se o país quiser enfrentar desigualdades de forma estrutural, a educação financeira precisa deixar de ser tratada como “extra” e se tornar parte da política educacional — contínua, universal e sensível às vulnerabilidades sociais.
Porque, entre a falta de perspectivas e o planejamento, existe apenas uma ponte: conhecimento.
E quando esse conhecimento chega, ele abre espaço para algo que muitos jovens nunca puderam exercitar: o direito de sonhar — e a capacidade de realizar.
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ALAIDE EVANGELISTA DA SILVA
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