Mulheres ampliam presença no topo das empresas e impulsionam nova cultura de liderança no Brasil

O número de CEOs mulheres nas maiores companhias do país dobrou nos últimos cinco anos, refletindo avanço consistente da liderança feminina em cargos estratégicos.

Por NICOLLE GARCIA
8 Min

Mulheres ampliam presença no topo das empresas e impulsionam nova cultura de liderança no Brasil
Foto divulgação
 

São Paulo, março de 2026 - O avanço das mulheres nos cargos mais altos das empresas brasileiras têm ganhado força nos últimos anos e sinaliza uma transformação relevante no ambiente corporativo. O último levantamento realizado pela consultoria Bain & Company revela que, entre 2019 e 2024, o número de mulheres CEOs das 250 maiores empresas do país dobrou, passando de 3% para 6%. No mesmo período, a presença feminina em cargos executivos cresceu de 23% para 34%, e nos conselhos de administração avançou de 5% para 10%.

 

No mês de celebração do Dia Internacional da Mulher (8 de março), os números mostram que o avanço feminino na liderança corporativa deixou de ser exceção para se tornar tendência.
 

De acordo com Fernanda Clarkson, CMO da SuperFrete, plataforma em expansão que impulsiona o ecossistema de comércio eletrônico, ocupar posições estratégicas é resultado de uma transformação que começa dentro das próprias empresas. “Ao longo da minha trajetória, percebi como é essencial quebrar padrões e abrir espaço para mais mulheres em posições de liderança. Recentemente, com a experiência da maternidade, vivi na prática a importância de confiar no time e no trabalho em equipe, equilibrando carreira e família. Ainda é raro ver ambientes corporativos realmente preparados para apoiar esse equilíbrio, mas acredito que cada passo que damos hoje contribui para transformar essa realidade para as próximas gerações”, afirma.

 

No setor de tecnologia, tradicionalmente marcado por baixa representatividade feminina, o cenário também começa a mudar. Para Isadora Kimura, CEO da Nilo, o crescimento da presença feminina em posições estratégicas reflete uma compreensão mais clara do impacto da diversidade nos resultados das empresas. “Vejo uma transformação em curso, com organizações cada vez mais conscientes da importância da diversidade para a inovação e o crescimento sustentável. Liderar nesse cenário significa não apenas abrir portas para outras mulheres, mas incentivar mudanças que tornem o mercado mais acessível e equitativo para todos. A mudança começa dentro das empresas, na forma como cultivamos oportunidades e promovemos ambientes inclusivos”, destaca.

 

Maísa Amaral, co-fundadora da Lerian, enfatiza que o desafio de liderar empresas do setor de Tecnologia é algo que as mulheres precisam vencer diariamente, mas que a ocupação desses lugares deve ser um compromisso coletivo. "Construir carreira no mercado de tecnologia é, para muitas mulheres, um exercício diário de competência e resiliência. Ao longo da minha trajetória, aprendi que ocupar espaços de decisão neste mercado não é apenas uma conquista individual, mas uma responsabilidade coletiva: abrir caminhos, formar novas lideranças e mostrar que inovação também se faz com diversidade. No Dia Internacional da Mulher, reforço que precisamos ir além do discurso e criar ambientes em que mulheres possam liderar projetos estratégicos, influenciar decisões e transformar o futuro digital".

 

No setor de comunicação, o movimento também é perceptível. Para Heloisa Santana, presidente executiva da AMPRO (Associação de Marketing Promocional), conquistar espaço há 25 anos exigiu não apenas competência técnica, mas um esforço constante para romper barreiras e abrir caminhos para outras mulheres. Segundo ela, ampliar a representatividade feminina no marketing de experiência é uma agenda estratégica e prioritária.

 

“Atualmente, 52% dos cargos da associação — considerando conselho, diretorias e corpo de talentos — são ocupados por mulheres. A AMPRO também defende políticas estruturadas de diversidade e inclusão, além de processos seletivos mais equitativos e programas voltados ao desenvolvimento de lideranças femininas. Apesar dos avanços, ainda há espaço para evoluir na promoção da equidade de gênero”, afirma.

 

“Infelizmente, a pesquisa do Insper lançada em 2025 mostra que a participação feminina em cargos de liderança permanece inalterada em relação às três edições anteriores e ainda está abaixo da média mundial de 29%. As ações afirmativas precisam continuar de forma estruturada, buscando a equidade de gênero não apenas sob a ótica da representatividade, mas considerando o quanto mulheres em posições de liderança ampliam perspectivas, qualificam a tomada de decisão e contribuem diretamente para os resultados das organizações”, reforça Simone Gasperin, sócia e Head de Marketing e Growth da BPool, plataforma de curadoria, contratação e gestão de serviços de marketing que viabiliza que grandes empresas se conectem ao ecossistema de comunicação.

No setor hoteleiro, o movimento de transformação também vem ganhando força, refletindo a consolidação gradual da presença feminina nos cargos de liderança e em posições estratégicas. A diretora de Vendas e Marketing da Rede Deville, Flavia Zülzke, destaca que a ascensão de mulheres à liderança reflete esse avanço, impulsionada por indicadores mais claros de equidade e por uma cultura corporativa cada vez mais atenta à diversidade.

“Iniciei minha trajetória no mercado financeiro, em uma mesa de operações formada por 14 homens, onde aprendi cedo que mulheres muitas vezes precisam se provar mais, especialmente em áreas técnicas, além de lidar com a exclusão de espaços informais de decisão. Hoje, em posição de liderança, vejo avanços como maior abertura ao diálogo e indicadores de equidade salarial e presença feminina em cargos estratégicos, mas a transformação ainda exige metas claras, programas estruturados e ações concretas. A resiliência é fundamental, sobretudo quando acompanhada de sororidade e políticas consistentes, para não apenas ocupar espaços, mas ajudar a construir uma nova cultura de liderança nas empresas”, comenta.

No campo da saúde mental e da gestão de pessoas, os desafios da liderança também ganham contornos específicos. “Como mulher em posição de liderança, percebo que ainda existe uma necessidade constante de validação. Muitas vezes, não basta ocupar um espaço estratégico, é preciso reafirmar continuamente a própria competência. Muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades de reconhecimento e pertencimento dentro do ambiente corporativo. Não é apenas sobre ter oportunidades, mas sobre se sentir legitimada, acolhida e ouvida no espaço de trabalho. Talvez a grande mudança que estamos vivendo nas empresas hoje seja justamente essa compreensão: ambientes que cuidam das pessoas não são apenas mais humanos, eles também se tornam mais sustentáveis, colaborativos e capazes de enfrentar os desafios do mundo do trabalho contemporâneo”, conclui Sabrina Bezerra, psicóloga, neuropsicóloga e diretora geral da Flora Insights, startup pioneira e especializada em diagnóstico e gestão de riscos psicossociais ocupacionais.


 

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NICOLLE GARCIA FERREIRA
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