Por Maxwell dos Santos
O jornalismo de hoje, muitas vezes refém da pressa e da lógica do clique, acaba deixando passar discussões mais profundas sobre os problemas que surgem na era digital. E um desses problemas, talvez um dos mais preocupantes, é o tal do “empreendedorismo de palco”. Uma ideia sedutora, que vende sucesso como se fosse receita pronta, ignorando tudo aquilo que realmente pesa: contexto, desigualdade, saúde mental e ética.
Esse fenômeno fica muito claro quando a gente olha para dois momentos diferentes, mas que conversam entre si: a ascensão e queda de Bel Pesce e a crítica presente no livro CEO aos 14, de minha autoria.
A trajetória de Bel Pesce, conhecida como “Menina do Vale”, virou quase um exemplo clássico de como histórias bem contadas podem construir reputações… e também derrubá-las. A crise de 2016 não foi só sobre uma hamburgueria que deu errado. Foi, na verdade, o desmoronamento de uma narrativa inflada, uma imagem construída com títulos ampliados, experiências reinterpretadas e um discurso altamente inspirador, mas pouco sustentado na prática. No fim das contas, ficou evidente: falar bem não substitui entrega real.
E é justamente aí que a ficção de CEO aos 14 acerta em cheio. Mesmo sendo um romance, ele soa assustadoramente próximo da realidade. Lucas, o protagonista, representa esse jovem que aprende desde cedo a se enxergar como uma empresa. Ao entrar no Instituto Gigantes, ele mergulha numa lógica de produtividade sem fim, onde tudo vira performance. Não se trata mais de ajudar no negócio da família, trata-se de se transformar em máquina de resultado.
O mais inquietante é perceber como essa história dialoga com o mundo real. Tanto Lucas quanto Bel Pesce orbitam a mesma ideia: a meritocracia como verdade absoluta. Mas, como já apontam tantos estudiosos, essa narrativa ignora algo básico, as pessoas não largam do mesmo ponto. Enquanto um vende o sonho de universidades internacionais, o outro vende mentorias caras para quem mal teve acesso ao básico. No discurso, tudo parece possível. Na prática, nem tanto.
Diante disso, o papel do jornalismo deveria ser claro: questionar, investigar, incomodar. Ser esse “vigia” da sociedade. Mas o que muitas vezes acontece é o contrário, temas importantes são deixados de lado, seja por preconceito contra obras independentes, seja por uma certa submissão a grandes nomes e estruturas já consolidadas. E isso cobra um preço alto, principalmente quando o assunto é a pressão cada vez maior sobre jovens para performar, produzir e “vencer” a qualquer custo.
CEO aos 14, nesse sentido, vai muito além de uma história juvenil. É quase um alerta. Um chamado para refletir sobre esse modelo de sucesso que promete muito, mas cobra caro: emocional e financeiramente. A virada de Lucas não está em ganhar mais ou crescer mais rápido. Está em perceber o jogo, questionar a lógica e escolher outro caminho. Um caminho mais humano, mais real.
No fim, o caso Bel Pesce deixou uma lição importante: narrativas vazias podem até subir rápido, mas também caem rápido. E talvez obras como CEO aos 14 sejam justamente o antídoto que faltava, uma forma de preparar os jovens para não se perderem nesse palco de ilusões.
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