Popularização das canetas emagrecedoras acende alerta sobre uso no tratamento do lipedema

Avanço da tirzepatida entre pacientes com a doença levanta dúvidas sobre eficácia, riscos e automedicação sem acompanhamento médico

Por TINTEIRO ASSESSORIA DE IMPRENSA
6 Min

Popularização das canetas emagrecedoras acende alerta sobre uso no tratamento do lipedema
Divulgação

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras abriu uma nova frente de dúvidas em torno do lipedema, condição crônica que afeta principalmente mulheres e ainda é cercada por desinformação e subdiagnóstico. Com o avanço do uso de medicamentos como a tirzepatida, cresce também o interesse de pacientes que passam a enxergar nessas substâncias uma possível resposta para sintomas como dor, sensibilidade ao toque, hematomas frequentes, sensação de peso nas pernas e aumento desproporcional de gordura nos membros.

Especialistas, no entanto, alertam que emagrecimento e tratamento do lipedema não são sinônimos. Embora a tirzepatida venha sendo associada à perda de peso e ao controle metabólico, isso não significa que o medicamento esteja consolidado como tratamento para a doença. Na prática, o que se vê é a aproximação entre duas discussões diferentes: de um lado, a expansão das terapias injetáveis para controle do peso; de outro, a busca de mulheres com lipedema por alternativas que aliviem sintomas e melhorem a funcionalidade.

Para a fisioterapeuta e mestre em Ciências Médicas Dra. Mariana Milazzotto, o aumento desse interesse revela uma distorção importante no debate. Segundo ela, a promessa de emagrecimento tem chegado antes da compreensão clínica do problema. “O lipedema não pode ser tratado como sinônimo de excesso de peso, nem como uma condição que se resolve apenas com perda de gordura corporal. Quando a paciente ouve que a medicação emagrece e transforma isso em expectativa de tratamento, existe um salto perigoso entre a informação e a realidade clínica”, afirma.

A discussão ganha força porque o lipedema ainda é frequentemente interpretado como uma questão estética. Mas, segundo especialistas, trata-se de uma condição crônica, inflamatória e progressiva, que pode comprometer a mobilidade, provocar dor e afetar a qualidade de vida. Esse enquadramento equivocado contribui para que muitas pacientes passem anos entre dietas, tentativas frustradas de emagrecimento e abordagens que não enfrentam adequadamente o quadro.

Nesse cenário, a tirzepatida começa a ser vista por parte das pacientes como uma possibilidade de atalho terapêutico. A lógica, segundo Mariana Milazzotto, é compreensível, mas exige cautela. “Em alguns contextos, a redução de peso pode ajudar na funcionalidade, na mobilidade e até em aspectos inflamatórios. Mas isso não pode ser transformado em promessa de tratamento validado para uma doença que tem características próprias e exige avaliação individualizada”, diz.

O principal ponto de preocupação, afirma a especialista, está no uso sem supervisão. Com a circulação acelerada de relatos nas redes sociais e a disseminação de conteúdos simplificados sobre as canetas emagrecedoras, decisões sobre medicação passaram a ser influenciadas também fora do ambiente clínico. “Quando a mulher convive durante anos com sintomas que ninguém nomeia corretamente, ela se torna mais vulnerável a soluções rápidas. O risco é trocar cuidado estruturado por expectativa imediata e entrar em um processo de automedicação ou uso mal indicado”, afirma.

Segundo Mariana, outro equívoco recorrente é imaginar que a medicação possa substituir o tratamento mais amplo exigido pelo lipedema. O manejo da doença, explica, envolve acompanhamento multidisciplinar, controle de sintomas, orientação individualizada, atividade física adaptada, reabilitação funcional e avaliação constante da progressão do quadro. “Nenhum medicamento deve ser apresentado como solução isolada para uma condição que reúne dor, limitação funcional, impacto emocional e alterações específicas do tecido adiposo”, diz.

As dúvidas mais frequentes entre pacientes ajudam a dimensionar o tamanho da desinformação. Emagrecer significa tratar o lipedema? A dor diminui com a perda de peso? A gordura localizada desaparece? A medicação substitui fisioterapia, compressão e acompanhamento profissional? Para Mariana Milazzotto, essas perguntas mostram que o debate precisa ser conduzido com mais responsabilidade. “A paciente não quer apenas emagrecer. Ela quer entender se vai sentir menos dor, se vai recuperar mobilidade, se vai melhorar sua relação com o próprio corpo e se encontrou um caminho real de cuidado”, afirma.

Mais do que discutir o papel de um medicamento específico, a pauta lança luz sobre um problema mais amplo: a tendência de interpretar doenças femininas crônicas e subdiagnosticadas a partir da lógica do emagrecimento. No caso do lipedema, esse movimento pode embaralhar ainda mais o acesso ao diagnóstico correto e reforçar a leitura equivocada de que o corpo da paciente deve ser avaliado apenas pela balança ou pela aparência.

Para Mariana Milazzotto, o debate sobre o tema só será produtivo se vier acompanhado de mais informação pública e qualificação clínica. “A pergunta central não é apenas se a medicação emagrece. A pergunta mais importante é o que essa mulher está tratando, com quem ela está tratando, quais sintomas ela apresenta, quais riscos existem e o que realmente pode melhorar sua qualidade de vida. E, quando se fala em qualquer medicamento, é essencial deixar claro que a prescrição e o acompanhamento devem ser feitos por médico, de forma individualizada e responsável. Sem isso, a discussão fica refém da promessa e perde o compromisso com o cuidado”, afirma.


Sobre a Dra. Mariana Milazzotto
Fisioterapeuta com 20 anos de atuação, mestre em Ciências Médicas e referência nacional no tratamento clínico do lipedema e na reabilitação de mulheres no pós-operatório de câncer de mama. Criadora da Jornada Desvendando o Lipedema, programa que forma fisioterapeutas e terapeutas corporais em práticas de acolhimento, movimento e reabilitação funcional.

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PAULO NOVAIS PACHECO
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