“Diversidade é ser convidado para a festa; inclusão é ser chamado para dançar.” A frase de Verna Myers segue atual ao refletir um desafio presente no mercado de trabalho brasileiro.
Como assistente social, atuando há mais de 10 anos com recrutamento inclusivo, percebo que muitas empresas acreditam que já incluem pessoas com deficiência. No entanto, na prática, ainda estão em um processo inicial de compreensão.
Existe um equívoco bastante comum: tratar a inclusão como um momento isolado, geralmente vinculado à contratação, quando, na verdade, ela começa muito antes. Dados do IBGE 2022 indicam que cerca de 26% das pessoas com deficiência estão inseridas no mercado de trabalho, enquanto entre pessoas sem deficiência esse percentual ultrapassa 60%. Mesmo com a Lei de Cotas, muitas vagas permanecem abertas. Não por falta de profissionais, mas por falta de preparo das organizações.
Essa dificuldade aparece desde o início, em descrições de vagas pouco acessíveis, processos seletivos que não consideram diferentes formas de comunicação e na insegurança de quem conduz a seleção. Grande parte dessas barreiras não é intencional. Elas estão relacionadas à falta de conhecimento e à pouca vivência com a diversidade.
O capacitismo também se faz presente, muitas vezes de forma sutil, ao pressupor incapacidade e limitar oportunidades. Ainda existe um distanciamento entre a inclusão social e a inclusão profissional. Avançamos na garantia de direitos, mas seguimos enfrentando obstáculos quando o assunto é acesso e permanência no trabalho.
Quando as empresas se abrem para aprender, escutar e revisar seus processos, os resultados começam a aparecer. Profissionais com deficiência se desenvolvem, contribuem e ampliam perspectivas dentro das equipes.
Isso exige intenção, formação e mudança de postura. Inclusão não se resume ao cumprimento de uma obrigação legal, mas ao reconhecimento do potencial humano e à construção de ambientes realmente acessíveis. Também é importante considerar que as vagas, muitas vezes, precisam passar por adaptações para atender às pessoas com deficiência. Isso não é concessão, é condição para que a inclusão aconteça de forma efetiva.
Diante desse cenário, vale uma reflexão: sua empresa está apenas preenchendo vagas ou está realmente preparada para incluir? Como ponto de partida, as empresas podem revisar suas descrições de vagas, garantir acessibilidade nos processos seletivos e investir na formação das equipes que realizam essas seleções. Buscar apoio de profissionais e instituições especializadas também contribui para tornar esse processo mais seguro e eficaz.
Inclusão não é sobre cumprir cotas. É sobre criar oportunidades reais e construir ambientes onde todas as pessoas possam participar, se desenvolver e permanecer com dignidade.
*Fernanda Milane Fernandes é assistente social, especialista em Educação Especial e Inclusiva e Gestão em Serviço Social. Atua há mais de 10 anos com recrutamento inclusivo e responsabilidade social, desenvolvendo iniciativas voltadas à inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Atualmente trabalha no grupo Uninter, na área de responsabilidade social do Instituto IBGPEX.
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JULIA CRISTINA ALVES ESTEVAM
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