28/04/2023 às 16h51min - Atualizada em 30/04/2023 às 00h14min

Em 2022, crianças aprenderam em ritmo mais acelerado do que antes da pandemia, mostra estudo da UFRJ

As mais vulneráveis, no entanto, não se beneficiaram da aprendizagem mais acelerada; pesquisa também comprovou recuperação parcial de aprendizagens perdidas durante o fechamento das escolas

SALA DA NOTÍCIA Redação
Imagem de Lourdes ÑiqueGrentz por Pixabay
Crianças que frequentaram o segundo ano da pré-escola em 2022, com atividades presenciais durante todo o ano letivo, tiveram um ganho adicional de 1 a 2 meses de aprendizagem em linguagem e matemática, se comparadas àquelas que vivenciaram o mesmo período da pré-escola em 2019 e não tiveram as atividades presenciais interrompidas por conta da pandemia.
 

O dado sobre o ritmo de aprendizagem das crianças também contrasta com aquelas que vivenciaram o segundo ano da pré-escola em 2020, o primeiro de pandemia: estas crianças aprenderam de 6 a 7 meses a menos em relação às de 2019.
 

Embora os dois grupos de crianças (2020 e 2022) tenham vivido ao menos parte da pré-escola com ensino remoto, os resultados sugerem que as ações realizadas pela rede de ensino para mitigar os impactos da pandemia surtiram efeito nas crianças que concluíram a etapa em 2022.
 

As informações são do estudo “Recomposição das aprendizagens e desigualdades educacionais após a pandemia covid-19: um estudo em Sobral/CE”, produzido por pesquisadores do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE).
 

Apoiada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a pesquisa estimou os efeitos da pandemia no curto e médio prazo e traz evidências inéditas sobre a recuperação do aprendizado, com destaque para a qualidade da educação ofertada.
 

Para chegar aos resultados, o estudo acompanhou o desenvolvimento de 1.364 crianças matriculadas na rede pública municipal de Sobral (CE), que frequentaram o segundo ano da pré-escola entre 2019 e 2022.
 
Grupo 2019 – Toda a pré-escola presencial;
Grupo 2020 – Primeiro ano de pré-escola presencial e nove meses de atividades remotas;
Grupo 2021 – Crianças que vivenciaram 16 meses de atividades remotas ao longo de toda pré-escola;
Grupo 2022 – Crianças que fizeram seis meses em regime remoto e todo o segundo ano da pré-escola de forma presencial;
 
A investigação permitiu a comparação entre grupos de crianças que tiveram o atendimento presencial – em contexto de normalidade antes da pandemia – com grupos que vivenciaram parte dessa etapa com atividades remotas. Foi realizado um sorteio para definir as crianças que iriam participar da pesquisa ao longo dos quatro anos.
 

O estudo observou que o grupo de crianças que vivenciou o segundo ano da pré-escola em 2020 – e, portanto, remotamente – aprendeu o equivalente a 39% em linguagem e 48% em matemática, se comparado àquele que frequentou esta etapa em 2019, de modo presencial. Já o grupo que terminou a pré-escola em 2022, aprendeu o equivalente a 111% em linguagem e 115% em matemática, na comparação com o grupo que frequentou o segundo ano da etapa em 2019.
 

Os resultados mostram os efeitos da reabertura das escolas sobre os ritmos de aprendizagem. As crianças do grupo de 2020, por exemplo, que vivenciaram o primeiro ano da pré-escola presencialmente, sofreram com a interrupção das atividades presenciais e a oferta remota na conclusão da etapa educacional.
 

Segundo Mariane Koslinski, pesquisadora do LaPOpE e uma das responsáveis pelo estudo, as incertezas da pandemia, as interrupções nas atividades – presenciais ou não – e todo o período de adaptação ao modelo remoto impactaram diretamente no ritmo de aprendizagem dessas crianças, que tiveram aprendizagem aquém daquelas que concluíram a etapa em 2019.
 

A pesquisadora destaca, no entanto, que a recuperação do ritmo de aprendizagem das crianças que concluíram a educação infantil em 2022 chama ainda mais atenção. “É curioso porque, como as crianças do grupo de 2020, as do ano passado também viveram parte da etapa no regime remoto”, observa Koslinski. “O que os resultados indicam é que, provavelmente, as ações da rede de educação de Sobral foram importantes para mitigar os efeitos da pandemia e acelerar o ritmo de desenvolvimento dessas crianças”, completa. Entre as ações, a pesquisadora destaca programas de busca ativa, ampliação da oferta de tempo integral e a implementação de novo currículo para a Educação Infantil alinhado à BNCC.
 

A expansão dos Centros de Educação Infantil (CEIs) – equipamentos com oferta exclusiva para a etapa –, a implementação de programas de parentalidade e a oferta de formação de professores que atuam na educação infantil em consonância com o novo currículo foram outras iniciativas apontadas pela pesquisa.
 

Mais uma hipótese que pode explicar essa aceleração nas aprendizagens em 2022 é a mudança do perfil de alunos da rede municipal de Sobral, que recebeu mais crianças vindas de escolas particulares, o que se reflete no aumento do nível socioeconômico médio das crianças do grupo de 2022 e uma possível interferência no acesso de crianças negras e pobres à pré-escola.
 

Nível de aprendizagem
 

Além do ritmo de aprendizagem, o estudo do LaPOpE também apresenta dados sobre o que as crianças dos quatro grupos sabiam no final da educação infantil – segundo ano da pré-escola. De acordo com o estudo, o grupo que sofreu o maior efeito negativo da pandemia sobre o percentual de aprendizagens foi o das crianças que estavam no segundo ano da pré-escola em 2021, que tiveram apenas seis meses de atividades presenciais.
 

Em uma comparação com as que estavam na mesma fase em 2019, a perda foi de aproximadamente 10 a 11 meses de aprendizado em linguagem e matemática. Já o grupo de 2020 sofreu perdas de 6 a 7 meses de aprendizagem nessas áreas. Em 2022, a pesquisa indica que o aprendizado volta a subir a níveis próximos, levemente abaixo, ao pré-pandêmico.
 

Em geral, os testes aplicados pela pesquisa indicam que no final da pré-escola, em 2019, aproximadamente 99% das crianças conseguiam identificar a maioria das letras apresentadas em um caderno ilustrado e conseguiam fazer distinção entre texto e imagem. Já em 2020, 92% das crianças identificaram o mesmo conjunto de letras no final da pré-escola e, em 2021, somente 69% das crianças. Em 2022, este percentual sobe para 95% das crianças.
 

Para matemática, a pesquisa indica que 99% das crianças eram capazes de fazer contas informais (com suporte de figuras) e identificar números de 1 a 10 em 2019. Este número cai para aproximadamente 96% em 2020, 87% em 2021 e volta a subir para 97% em 2022.
 

Segundo os pesquisadores, um dos fatores que explica a recuperação parcial das aprendizagens foi a expansão com qualidade dos CEIs de Sobral, que oferecem turmas exclusivas de educação infantil, em oposição às escolas convencionais, que ofertam também o ensino fundamental e são chamadas de integradas.
 

“Os CEIs possuem duas características importantes: a infraestrutura, com equipamentos e mobiliário pensados para oferta exclusiva da educação infantil e diretores focados apenas nessa faixa etária. As análises realizadas em 2019 e replicadas em 2022, após a expansão do equipamento, sugerem que as crianças matriculadas nos CEIs apresentam aprendizado mais acelerado na comparação com as crianças que frequentavam as escolas integradas. Ou seja, a qualidade da oferta, mesmo diante do desafio da expansão de vagas, é fator fundamental”, salienta Tiago Bartholo, também responsável pelo estudo.
 

Na avaliação do pesquisador, a pesquisa inédita permite uma reflexão sobre a importância da expansão da oferta com qualidade da educação infantil e os desafios para os próximos anos. “Os quatro anos de pesquisa na rede de Sobral, antes e durante a pandemia, reforçam o papel central da escola pública no desenvolvimento infantil e na promoção de mais oportunidades, em especial para as crianças em situação de maior vulnerabilidade social. Os dados de 2022 sugerem uma recuperação parcial das aprendizagens, mas há ainda um grande desafio na diminuição das desigualdades de aprendizagem observadas durante os anos de 2020 e 2021”, defende Bartholo.
 

Os pesquisadores reforçam ainda que os resultados do estudo não devem ser interpretados como um retrato do que aconteceu no resto do país. “A ausência de coordenação nacional nos anos de pandemia gerou um cenário extremamente desafiador para os gestores municipais e as respostas para os desafios da pandemia foram muito desiguais e inconsistentes quando comparamos estados e municípios pelo país”.
 

Desigualdade na aprendizagem
 

Recomposição das aprendizagens e desigualdades educacionais na educação infantil após a pandemia covid-19: um estudo em Sobral/CE” também indica que crianças em situação de maior vulnerabilidade social aprenderam menos.
 

Segundo o relatório, em 2019 não havia diferença entre a aprendizagem das crianças de nível socioeconômico mais alto e mais baixo. Em 2022, no entanto, o estudo observou diferenças de 3 a 4 meses de aprendizado entre os grupos. As crianças de nível socioeconômico mais baixo apresentaram aprendizado semelhante às crianças de 2019 em matemática. Já as crianças de nível socioeconômico mais alto, apresentaram aprendizado mais acelerado, equivalente a 123% do aprendizado do grupo de 2019.
 

“Uma hipótese para essa desigualdade é a mudança do perfil do aluno que frequenta a rede municipal de Sobral, mais especificamente, a entrada na rede pública de crianças que frequentavam escolas privadas. Também não podemos descartar o fato de que a pandemia afetou de forma mais intensa a renda e a saúde das famílias mais pobres, o que pode gerar efeitos negativos mais persistentes no desenvolvimento das crianças.”, avalia Bartholo.
 

Em relação à cor/raça das crianças, aquelas de cor branca apresentaram aprendizagem em matemática mais acelerada que crianças negras (pretas e pardas) em 2022. A diferença estimada é equivalente a 1 mês de aprendizagem.
 

Para Beatriz Abuchaim, gerente de Conhecimento Aplicado e especialista em educação infantil da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, o desafio neste momento ultrapassa as esferas educacionais. “Diversas evidências mostram que a pandemia afetou desigualmente as famílias em questão de renda, acesso a serviços e a redes de apoio. Tudo isso trouxe impactos para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças, lembra Abuchaim. “Nesse sentido, as ações devem ser integradas e contemplar diversas esferas e níveis de governo. A responsabilidade por montar essa estratégia não pode ser só da área de educação”, finaliza.
 

Como reverter os impactos
 

Ao final do material, os pesquisadores apresentam uma série de recomendações para os gestores de diferentes níveis a fim de mitigar os problemas apontados. Para o Ministério da Educação é recomendado que haja um protagonismo na elaboração de um plano nacional de recuperação de aprendizagem com aporte de recursos e apoio técnico para guiar as ações das secretarias estaduais e municipais de educação.
 

Já as secretarias estaduais de educação devem, entre outros pontos, oferecer apoio técnico e financeiro para que os municípios elaborem e implementem suas estratégias. As secretarias municipais de educação, por sua vez, devem implementar programas de Busca Ativa de crianças com foco na educação infantil e elaborar diagnósticos sobre os efeitos da pandemia no desenvolvimento das crianças e nas taxas de abandono e evasão escolar.
 

Por último, os diretores e professores podem, entre outras coisas, promover maior integração entre famílias e escolas incorporando estratégias bem-sucedidas de comunicação com famílias utilizadas durante a pandemia

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