Nos mais de 50 projetos de migração para a nuvem conduzidos no último ano, com mais de 14 mil recursos transferidos para ambientes cloud, a Dedalus, líder em Cloud e Data & AI, estima uma redução de 3,84 toneladas de CO2/ano, a nível LatAm. O número é concreto, mas parte de uma limitação estrutural do mercado: a maioria das empresas não possui uma referência energética confiável que permita calcular, com precisão, o quanto a migração efetivamente reduziu em sua pegada de carbono.
Esse cenário resume um paradoxo do mercado brasileiro de tecnologia: enquanto 72% das empresas já alinharam a sustentabilidade ao planejamento estratégico, segundo o Panorama da Sustentabilidade 2025, da Amcham Brasil, a migração para a nuvem segue sendo justificada por custo e modernização, não por impacto ambiental.
"O mercado brasileiro ainda opera nessa lógica de efeito colateral. A empresa migra para a cloud por custo ou por modernização, e a sustentabilidade aparece no relatório de ESG como consequência, não como objetivo", diz Patrícia Mazzonetto, diretora de Marketing e RH da Dedalus.
O que muda com a nuvem e o que não muda sozinho
Empresas que mantêm infraestrutura física on-premise operam com servidores superdimensionados, baixas taxas de utilização e consumo contínuo de energia para alimentação e refrigeração. Na nuvem, os recursos são consumidos sob demanda, os data centers dos provedores operam com maior eficiência energética e o compartilhamento de infraestrutura entre múltiplos clientes eleva a taxa de utilização dos servidores. O resultado tende a ser menor desperdício e menor emissão de carbono por operação.
Mas a equação não é automática. "Para que o benefício ambiental se concretize, não basta migrar. É preciso arquitetura bem definida, práticas de FinOps orientadas à sustentabilidade e monitoramento contínuo do consumo de recursos", afirma Mazzonetto. "Sem essas camadas, a empresa troca um desperdício local por um remoto."
A virada, na visão do especialista, depende de pressão regulatória. "As ações de sustentabilidade precisam deixar de ser tratadas como campanha de marketing. Enquanto não houver legislação que exija resultados mensuráveis, o benefício ambiental da nuvem continuará sendo um subproduto da decisão técnica, não um objetivo."
IA pressiona a conta energética
A expansão do uso de inteligência artificial nas operações corporativas adiciona pressão ao balanço ambiental. O aumento da demanda computacional gerado pela IA eleva o consumo de energia e exige data centers maiores e mais componentes eletrônicos dos provedores de nuvem.
"Não é possível absorver esse crescimento sem gerar riscos ambientais", reconhece Mazzonetto. "Mas, sem a nuvem, o cenário seria mais grave: se cada empresa precisasse montar seu próprio data center para rodar modelos de IA, o consumo de recursos seria muito mais ineficiente. A nuvem permite crescer com controle, eficiência e governança."
Mensuração como próximo passo
A estimativa de 3,84 tCO2 de redução anual calculada pela Dedalus foi obtida a partir dos parâmetros de emissão que os próprios provedores de nuvem divulgam para seus data centers, cruzados com o volume e o tipo de recursos migrados. A limitação é conhecida: o ponto de partida do cliente não costuma ser preciso.
A ausência de baseline energético é uma lacuna transversal ao mercado corporativo brasileiro. Sem uma medição prévia do consumo de energia da infraestrutura on-premise, qualquer estimativa de redução de emissões pós-migração depende de parâmetros genéricos, o que fragiliza os relatórios de ESG que se apoiam nesses dados. O problema tem solução técnica por meio de uma auditoria energética antes da migração e adoção de ferramentas de monitoramento contínuo de consumo em nuvem, mas exige que a decisão de migrar seja tratada, desde o início, como uma decisão também ambiental, não apenas tecnológica.
"O amadurecimento do mercado passa por transformar a sustentabilidade em critério explícito de decisão. Só assim os resultados podem ir além do discurso e impactar o negócio de forma mensurável", conclui Mazzonetto.
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Vanessa Cezar Campos de Oliveira
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